Pensamentos sobre menstruação

09/02/2010 at 8:35 AM (Crônica, Pensamentos aleatórios) (, )

… e sobre a vergonha de usar absorvente.

Lembrança de adolescência:

Eu devia ter uns 15 anos, ou menos. Estava com um grupinho de amigos, sentada embaixo do abacateiro no pátio da escola. Eu procurava alguma coisa na bolsa e naquele monte de tralha (carteira, estojo, caderno, livro etc) uma absorvente apareceu. Um menino que estava sentado do meu lado viu, olhou para mim e disse:

- E esse modes feio aí?

Primeiro, ele não tinha que ficar xeretando a minha bolsa. Segundo, chamar absorvente de modes é coisa da minha avó. Terceiro, ele obviamente estava tentando me constranger.

- O que tem?

- Fica andando com esse negócio na bolsa!
- Se você fosse uma menina também andaria com um ‘modes feio’ na bolsa.

Silêncio da outra parte.

Me lembrei disso porque outro dia dei uma descida rápida, no meio do expediente, para comprar absorvente. Jurava que tinha um na bolsa, a menstruação veio e o dito não estava lá. Corri na farmácia, peguei o modelo que eu uso e fui pagar. A balconista colocou o pacote dentro de um saquinho de papel e depois em uma sacola plástica.

Eu adoro farmácias e já comprei as mais diversas tranqueiras em várias delas. Já levei maquiagem, camisinha, xampu, remédio, sabonete, cosmético. E em todas elas, só o absorvente vai no saco de papel. É uma coisa besta, mas realmente me incomoda.

Me lembra que eu preciso ter vergonha da minha menstruação. As pessoas não podem saber que eu estou comprando alguma coisa para meu sangue não sujar minha roupa, já que eu estou “naqueles dias”. Isso acontecia muito na escola. As meninas morriam de medo de que os meninos descobrissem que elas estavam menstruadas. Se um outro homem, tipo professor ou inspetor, soubesse, era a morte. Fora os casos de garotas que menstruavam com 12, 13 anos e não sabiam o que aquele sangue no meio das pernas significava, porque a mãe nunca havia contado.

Eu descobri o que era menstruação aos seis anos. Fui há uma Bienal do Livro com a minha mãe, na época em que o evento era toscamente organizado no Anhembi. Como não tinha banheiro suficiente para todo mundo, entramos no mesmo box, eu fiz xixi e depois minha mãe foi usar a toilette. Ela me disse que eu veria sangue, mas que não era para me assustar. Perguntei por que ela estava sangrando, e ouvi a explicação simplificada, porém honesta: as mulheres adultas soltam sangue todo o mês. É uma coisa natural do corpo, porque ele se prepara para receber um nenê. Quando o nenê não vem, ele solta o que estava dentro, e essa coisa toda sai com sangue. Perguntei se dói, e ela disse que não. Daí em diante eu cresci sabendo que, um dia, ia menstruar.

Talvez por isso eu nunca tive vergonha de menstruar ou de dizer que estava no meu período. Minha mãe não tem – ou não tinha, já que ela está na menopausa -, e não passou isso para mim.

Em um dos últimos programas do Pânico na TV eu vi a mesma atitude com relação ao absorvente. O Repórter Vesgo e o Sílvio Santos fake estavam entrevistando a Cissa Guimarães na porta de uma festa quando o absorvente interno dela caiu da bolsa. E eles ficaram tirando o sarro porque “O OB caiu!”. Ela parece não ter ligado muito, o que foi bom. A piada acabou logo, o que também foi bom.

Continua perguntando: o que tem? Toda mulher menstrua. Toda mulher sabe disso, e todo homem também. Que mal tem se eu andar com um absorvente na bolsa, ou se eu sair na farmácia com um pacote de Sempre Livre à mostra?

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Esperando a carona

24/12/2009 at 9:41 PM (Conto) (, )

Ela estava parada na chuva, na porta da faculdade, esperando a carona do namorado. Não chovia muito forte, mas a água já estava escorrendo do cabelo. Além disso, a roupa de verão, com penas e braços de fora, era uma má pedida e a deixava com frio. Se ajeitou embaixo de uma árvore, abraçando o próprio corpo. Uns minutos depois, uma menina para do seu lado. Tinha traços orientais, era pequena e trazia um guarda-chuva. Ficaram ali por um tempo até que a garota perguntou:

- Desculpa, mas não aguento ver você na chuva. Quer um pedaço do meu guarda-chuva?
- Não, obrigada! – ela riu, de um jeito simpático – Não está chovendo tão forte assim.
- Ah, está um pouco… você tem certeza?
- Tenho sim! Eu estava ali no telhado da portaria, mas lá minha carona não me vê.
- Eu também estava lá, pensei o mesmo que você.
As duas ficaram em silêncio. Ela não é muito de conversar com as pessoas na rua, mas a menina mais nova puxou assunto de novo, e ela não queria ser chata com uma pessoa tão simpática.
- Que curso você faz?
- Jornalismo.
- Poxa! Legal!
- E você?
- Administração. – a outra pensou em falar “Legal também!”, mas estaria mentindo. Seria legal se a menina fizesse Arquitetura, História da Arte, Letras com Habilitação em Armênio, mas nenhum desses tinha na faculdade. Resolveu só sorrir e fazer outra pergunta.
- Qual semestre?
- Primeiro.
- Ah, começou essa semana, então?
- É…
- Está gostando?
- Sim. Mas ainda não deu para ver muita coisa. – a menina sorriu. – E você, em qual está?
- Sétimo.
- Nossa! Nunca conheci ninguém do último ano! – Dava para ver que ela não estava mentindo. Na verdade, parecia que ela estava encantada. – E aí? Como é?
- Ah… corrido. – Ela soltou uma risadinha. – Tem as matérias normais, o tcc, o estágio. Mas é bom porque você sabe que está terminando.
- Nossa, deve ser muito legal ser do sétimo semestre!
- Tem suas vantagens. – Ela sorriu. Mais alguns minutos meio constrangedores em silêncio.
- Meu pai chegou. Vou embora. Até mais!
- Até! Bem vinda!
- Obrigada!

As duas sorriram e a menina saiu correndo em direção a um sedan parado na guia da calçada.
Ela continuou parada, na chuva, esperando.

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Três bruxas

24/12/2009 at 4:55 AM (Conto) (, )

As três mulheres desceram do carro. Vestiam negro. Já passava muito da meia noite e não havia uma alma viva na rua. Só um cachorro dormia do lado de dentro um portão.

A mais velha das três foi a que dirigiu, portanto não carregava nada. Mas as outras duas traziam cargas estranhas. A do meio portava um caldeirão de ferro repleto de ovos. E a terceira uma bandeja com comida.

Essa, a mais nova das três, ajoelhou-se no canteiro de terra que dava para uma encruzilhada e começou a retirar a comida da bandeja. Fez um arranjo no chão com uma camada grossa de farofa, três cabeças de alho, três ovos e três velas pretas. Então, elas bateram o pé esquerdo três vezes falando palavras estranhas. O cachorro acordou e ficou de olho no movimento.

- E agora? O que fazemos com o resto? – perguntou a mais velha.
- Isso. – a do meio, então, enfiou a mão no caldeirão e tirou um ovo. Ficou de frente para a encruzilhada e tacou-o com força, bem no meio, onde as ruas bifurcavam e formavam um y. Ele se espatifou com um estalo que pareceu um estrondo no silêncio. Ela, então, olhou satisfeita para as demais. As outras duas seguiram seu exemplo.

O barulho assustou o cão, que começou a latir. A cada ovo, uma nova saudação e um novo latido. Durante o ritual, um homem passou de bicicleta e ficou olhando. Tão estranho quanto três bruxas em uma encruzilhada na madrugada era achar um homem de camiseta e bermuda andando de bicicleta, por aquelas bandas, depois da meia noite.

Ele se foi e elas continuaram o serviço, até não restar mais ovos na panela. As mulheres fizeram uma última saudação e entraram no carro, deixando que a noite aproveitasse seu banquete.

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Devolução

15/12/2009 at 12:34 AM (Conto) (, )

Os objetos esquecidos no hotel iam para a recepção. Ficavam lá por 15 dias. Se os donos não aparecessem, os objetos eram doados aos funcionários. Com isso teve gente que ficou com relógios importados, perfumes franceses, gravatas de seda e todo o tipo de tralhas que os hóspedes deixavam para trás.

Os livros sempre ficavam para Júlia. A mais velha das recepcionistas, que trabalhava lá há mais de 30 anos. Ela tinha uma coleção dos exemplares esquecidos. Alguns traziam dedicatórias, outros tinham bilhetes dentro e alguns eram anotados. Ela amava e guardava todos, como se fossem mais do que a história da narrativa. Ela os considerava parte das histórias das pessoas que os esqueceram e, assim, ela também faria parte de vários contos.

Quando um cliente ligava para reclamar um livro, ela avaliava. Se era uma obra que queria ler ou ter, inventava uma regra do tipo “só pode ser retirado pessoalmente”. Ela não se importava de perder um cliente ocasional para ganhar um livro para a vida toda. Se era um livro chato, repetido, ou de um autor que ela não gostava, ela pegava o endereço e mandava pelo correio.

Mas raramente eles ligavam, a não ser que fosse um dos livros de criança dos filhos, ou alguma coisa de trabalho. Os livros com histórias sempre eram menosprezados pelos hóspedes ocupados. Mas Júlia estava lá para cuidar deles.

Foi assim que ela procedeu com Lia, quando a moça ligou. Tinha saído do hotel há dois dias e esqueceu um livro de uma escritora inglesa, sobre uma moça que voltava para sua ilha natal. Júlia estava contando os dias para ficar com aquele assim que a arrumadeira entregou-o para a caixa de Achados e Perdidos. Ela não queria devolver o livro para a moça e, por isso, soltou a regra inventada no telefone:

- A senhora precisa vir buscá-lo pessoalmente.
- Mas como eu vou fazer isso? Estou a 300 km de distância!
- A senhora tem 15 dias, a partir do dia que fez o check-out.
- Mas vocês não podem me enviar o livro? Eu pago.
- Não, senhora. Só devolvemos pessoalmente para ter certeza de que é do hóspede.
- Mas moça, eu não tenho como ir aí pessoalmente, e em 15 dias! E outra, meu irmão ficou hospedado aí, esqueceu um relógio Bulgari e vocês mandaram para ele.
- São políticas diferentes, senhora.
- Ah, então um relógio importado vocês mandam, e um livro de merda não? – Livro de merda? Se era assim que ela o tratava, então não merecia tê-lo de volta.
- A política é diferente, senhora, já lhe disse. Diante da sua insatisfação, o que posso fazer é contar os 15 dias à partir de hoje.

Lia murmurou que ia ver o que faria, disse um obrigado muito irritado e desligou. Júlia perdeu a paciência também. Como imaginou que ela era bem capaz de aparecer lá, em um horário que outra recepcionista estivesse, ela levou-o para casa. Resolveu que o leria e mandou os 15 dias às favas.

Havia passado mais de uma semana desde o telefonema. Júlia estava em um de seus dias de folga, lendo no quarto, quando a campainha tocou. Ela estranhou e, meio assustada, foi atender. Chovia muito e ela não conseguia ver pela janela quem estava tocando. Atendeu do mesmo jeito. Na soleira estava uma moça, na casa dos 20 anos, alta e com o cabelo bem curto. Estava molhada por causa da chuva e parecia irritada.

- Pois não?
- Eu gostaria de falar com a… – a moça olhou um papel molhado e amassado na sua mão – dona Júlia.
- Sou eu. Em que posso ajudar?
- Meu nome é Lia. Eu vim buscar meu livro.
- Seu… livro…?

- É. Eu esqueci no hotel onde a senhora trabalha. Me informaram que eu devia buscá-lo pessoalmente e quando eu cheguei lá me disseram que a senhora talvez tivesse levado… – Júlia olhou de cima a baixo, com uma expressão fechada. Lia percebeu e logo emendou – Olha, eu sinto muito incomodar, mas é um livro muito especial e eu não queria ficar sem ele…
- Desculpe, não sei do que você está falando…
- Moça, por favor… o livro é bem importante para mim. Tem dedicatória e tudo, eu ganhei de uma pessoa que eu gosto muito. Você pode me devolver, por favor?
- E se eu disser que não posso?

Lia ficou calada e olhou para o chão. Achou que uma viagem de 300 km, uma caminhada na chuva e uma história tocante seriam o suficiente para sensibilizar a pessoa que pegou o seu livro, mas não funcionou.

- Tá bom. Se você não quer devolver, não precisa. Desculpe incomodar.

Agora era Júlia quem não esperava. Ela estava achando que aquela mocinha petulante ia entrar a força, procurar o livro pela casa e sair levando a porta junto. Mas ela desistiu e resolveu ir embora. E parecia triste. Alguém que não se importava com o livro não ficaria triste sem ele.

- Espera um minuto. – A moça já estava abrindo o guarda-chuva para sair quando a velha sumiu pela porta. Voltou dois minutos depois com o livro enrolado num saco plástico. – Tome. É seu, então fique com ele. Mas cuide bem.
- Vou cuidar. Obrigada. – Lia não demonstrou nenhum tipo de gratidão. Para ela, a outra não fazia mais do que a sua obrigação em devolver o exemplar. Terminou de abrir o guarda chuva e saiu para a calçada no meio da tempestade.

Dias depois, Júlia recebeu um pacote do correio, em seu nome, na recepção do hotel. Estava sem remetente e vinha com um bilhete escrito à mão pelo chefe da correspondência, recomendando que não seja aberto. Mesmo assim, ela ignorou a advertência e abriu. Era um exemplar do livro que ela devolveu, mas uma cópia nova. Na primeira capa, estava escrita a seguinte dedicatória:

“Já que você fazia tanta questão, achei que seria justo ter um só para você.
Lia”.

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Unhas Vermelhas

03/12/2009 at 6:57 AM (Pensamentos aleatórios) (, )

Unhas Vermelhas

Estou com as unhas vermelhas. Na verdade, a cor chama-se Vinho-qualquer-coisa, mas o resultado final é vermelho. Não aquele vermelhão de perua de novela, mas é uma cor bonita. Forte. Com classe.

Comprei meio sem querer, esperando algo mais próximo do magenta. Acho que seria mais divertido e menos sério. Percebi só quando já estava com a mão na massa e o vidro aberto, dando uma pincelada longa no dedão esquerdo. Respirei fundo e fui em frente.

Nunca havia usado vermelho. Eu sempre achei que era cor de perua. Desde nova eu gosto de cintilante e de preto, o primeiro cremoso que usei na vida. Descobri graças a uma fantasia de halloween: o esmalte ia ser complemento da roupa, e acabou ficando muito mais tempo. Fora todos os longos períodos que eu ando por aí de unha limpa, por preguiça de fazer e por não me importar com isso.

Minhas outras tentativas de usar vermelho foram ridículas. Da primeira, comprei errado um Beterrada achando que poderia ser um berinjela (eu troco beterrabas por berinjelas com certe frequência, já que ambas são vegetais com “be”). Quando eu passei no primeiro dedo e vi que era um vermelho de doer na vista, fui correndo tirar, como se fosse sujeira. Não conseguia me imaginar usando aquilo. Fora que ir para escola, com aquele uniforme sem graça preto, branco e verde, e unha vermelha ia chamar atenção demais, meus amigos iam comentar minhas unhas e eu ficaria morrendo de vergonha. A gente é meio besta aos 15 anos…

A segunda tentativa foi um tempo depois. Eu tentei usar o mesmo esmalte. Estava lá em casa mesmo, eu já tinha pago, ia endurecer mais cedo ou mais tarde e eu não queria desperdiçar. Mas mesmo assim, não deu. Passei em uma mão, fiquei olhando, olhando, olhando… conclusão: tirei antes mesmo de secar e fiquei com as unhas todas manchadas uns bons dias.

Depois disso, fiquei anos sem tentar de novo. Coloquei na cabeça que vermelho nas unhas não era para mim. Eu o encarava como uma cor ambígua: ou as mulheres muito fúteis usavam, ou as muito sofisticadas. Como eu não sou nenhuma das duas coisas, esqueci o assunto.

De uns meses para cá, eu tinha até largado mão do assunto esmalte. Fiquei com as mãos ao natural. Depois, comecei a ver o desleixo que eu tinha com elas. Se eu comecei a cuidar melhor do meu corpo como um todo – e é o que eu tenho feito há mais de um ano, em um exercício diário de amor próprio -, porque não cuidar dessa parte também?

Acho que eu finalmente resolvi meus problemas com o vermelho.

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Alta Fidelidade

18/11/2009 at 8:05 AM (Resenhas) (, , )

Eu me pareço com o Rob, de Alta Fidelidade.

Na verdade, eu não tenho nada há ver com ele. Sou mulher, mais nova, tenho um emprego convencional, os parcos discos que tenho em casa não são nem um protótipo de coleção e eu ainda tenho namorado. Mas de certa forma eu me identifiquei com ele.

John Cusack encarnando Rob, no filme de 2000

Na verdade isso surgiu pelo que eu seria, não pelo que eu sou. Quando eu era adolescente, achava que chegaria como ele aos 30, só que menina. Provavelmente não vou, mas ainda existe uma parte de mim que não se desprendeu completamente desse estereótipo. Eu nunca quis ser um adulto convencional, e essa ideia de futuro era algo bem diferente do que eu considerava como sendo os planos de um adulto convencional. Todo mundo que eu conhecia nessa faixa etária era casado, com filhos, família respeitável, emprego sério e achava minha inclinação por música uma bobagem de adolescente. Sorte que hoje eu conheço mais gente.

Entre essas e outras coisas, Alta Fidelidade despertou pequenas coisas que me fazem amar o livro. Primeiro, o próprio Rob, tão parecido e, ao mesmo tempo, tão diferente de mim. Segundo, a música. Tudo que tem música eu gosto. É quase um hobby, junto com jardinagem e literatura. Quando eu não tenho o que fazer, ouço música. E também leio sobre música. E procuro novas músicas. E critico músicas que eu não gosto.
Terceiro, o estilo. Nick Hornby escreve como se estivesse conversando. É uma delícia.

Eu queria tê-lo escrito. Ou, pelo menos, eu devia ter lido antes. Tenho esse péssimo hábito de ignorar certas obras e, quando vou ler, me arrependo do tempo que demorei para descobri-la. Mas pelo menos eu não estou velha demais para aproveitar todo o potencial.

Ah, e eu concordo com Rob: eu poderia ser uma pessoa mais feliz se não ouvisse tanta música pop de cortar os pulsos.

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Historinha pro Love Your Body Day

22/10/2009 at 8:45 AM (Pensamentos aleatórios) (, )


Tenho aprendido a amar o meu corpo todos os dias. Não tem sido fácil, mas é muito prazeroso. Com isso descobri que acho as minhas mãos bem bonitas, que meu pé não é tão esquisito quanto eu pensava e que minha barriga nem me incomoda tanto assim.

Como estou no meio disso, tive muitas ideias para o Love Your Body Day. Rascunhei milhões de textos, porque era a oportunidade perfeita de despejar tudo o que eu sempre pensei sobre os padrões de beleza que são despejados em cima das mulheres e como eu lido com isso. Mas no fim, achei melhor contar a historinha abaixo, que ilustra um pouco o que eu penso sobre o assunto.

Estou terminando um tratamento para emagrecer que durou mais de um ano. Foi um processo longo de reeducação alimentar, disciplina e mudanças de hábitos. Não vou mentir: em parte eu fiz pela estética. Uma parte de mim realmente se incomodava com o excesso de peso e não gostava de ver no espelho algo que eu não era por dentro.

Aí, há uns dois meses, recebi um e-mail de uma menina que trabalhou comigo. Uma conhecida dela é repórter dessas revistas de boa forma e queria fontes. A pauta era sobre pessoas que emagreceram depois de um problema de saúde. Como eu comecei o tratamento por causa de uma crise de gastrite, lembraram de mim.

Pensei em participar. Podia ser um incentivo para muitas mulheres que querem emagrecer, às vezes até por problemas de saúde mesmo, e tem dificuldades nisso. Só que no e-mail da repórter estava escrito que as entrevistadas deveriam estar “magras e bonitas, porque iam tirar foto”.

Essa frase me fez desanimar por completo da idéia. Só mulheres magras são bonitas? Eu não acho. Aliás, eu nunca me pautei por esses padrões de beleza e me considero uma mulher bonita. Não fiquei tentada a ser julgada por alguém que eu nem conheço se eu estou magra o suficiente para a imagem distorcida das revistas do que deve ser um corpo feminino. E se elas pegassem uma pessoa com obesidade mórbida, que ainda é considerada gorda pelos padrões das revistas de moda mas que já se sente magra? O que aconteceria com a auto-estima de alguém assim quando a foto fosse cortada da edição por ela não ser suficientemente bonita?

Lembro quando a Britney Spears apareceu “gorda”em um prêmio da MTV. Ela foi motivo de chacota no mundo todo por não cuidar da própria imagem. Na época, ela tinha mais ou menos o peso que eu tenho hoje, se não me engano. E ela nem estava feia, só diferente. Nada demais para uma mulher que tinha dado a luz ao segundo filho em um ano. Lembro de achar um absurdo aquela postura.

Pensei nessas duas coisas. Pensei nos anos em que critiquei as loucuras que minhas amigas faziam para emagrecer (academia, dietas malucas, vômito, corte de refeições). Eu não queria contribuir com isso e, por melhor que fossem as minhas intenções, era o que eu estava fazendo.

Não retornei o e-mail. Apesar de realmente me sentir mais bonita hoje, eu achei um desaforo aquela colocação. Além disso, não quero colaborar ajudando um monte de mulheres a se encherem de neuras com seu peso porque uma revista x diz que eu preciso ter 50 kg para ser atraente. Não responder aquela mensagem foi meu pequeno ato de rebeldia contra esse modelo que somos obrigadas a aguentar, mas não a concordar.

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Vontade de mar

06/10/2009 at 1:56 AM (Pensamentos aleatórios) (, , , )

Boiçucanga, SP Sinto saudades da praia.

Faz seis meses desde minha última visita ao mar. Fui com meu namorado e passamos uma  ótima semana nadando próximo a serra, onde a água é limpa e calma. Tomamos chuva na praia e nos deitamos com as costas na areia, conversando sobre a vida e olhando o céu azul. Almoçávamos  a céu aberto e caminhávamos pela beira da água à tarde.

Uma semana depois de subirmos a serra, estávamos de volta. Dessa vez a areia era mais fofa e o mar mais agitado. Eu me agarrava no pescoço dele para não ser levada pela correnteza. Dividimos a parte de cima de um chalé, com uma cama de casal só para nós. Depois dessa viagem decidimos comprar uma cama maior.

Em dias de Sol opressivo – como hoje – eu me lembro da praia, e sinto falta dela. Agora eu gostaria de estar cochilando, ou lendo em um canto fresco da casa, esperando o calor diminuir para passear pela areia e catar conchas. Eu sempre levo uma meia dúzia para casa e vou enfiando no altar. Vários deuses gostam de receber conchinhas. Tenho apreço especial em tornar sagradas aquelas que tem uma história.

Eu amo o mar, como amo os deuses que ele abriga. Amo seu movimento e sua espuma branca e, especialmente, o silêncio profundo entre duas ondas que quebram. É só nessas horas que eu acalmo minha mente, que ela se aquieta para seguir o fluxo das ondas. O contato com aquele mundo de água me traz raros momentos de paz e de quietude interior.

Um dia eu vou morar na praia, ou mais perto dela. Vou poder ver o mar da janela de casa e ouvir as ondas da cozinha. E quem sabe passear na praia todos os dias durante o pôr-do-Sol.

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Livros banidos

01/10/2009 at 12:40 AM (Pensamentos aleatórios) (, , , , )

Tem um pessoal nos Estados Unidos proclamando a última semana de setembro como a Banned Books Week, algo como “A semana dos livros banidos”. É um movimento a favor da liberdade intelectual, criticando as escolas e bibliotecas que proíbem certas obras.

Provavelmente não vai respingar aqui, mas fez com que eu lembrasse dos livros que não pude ler. Só que a  proibição não era da bibliotecaria, mas da minha mãe mesmo. Não que ela fosse uma pessoa quadrada com relação a leitura, muito pelo contrário: o meu gosto pelas palavras foi herdado dela, que por sua vez trouxe do meu avô. Nós três, cada um em seu tempo e do seu jeito, construímos a torre de livros empilhados em duas estantes do meu escritório, que vai desde Herman Hesse até as Anetodinhas do Bichinho da Maçã.

Eu sempre tive livre acesso a maior parte deles, mesmo aqueles sem figuras ou em línguas que eu não entendia, como o francês e o inglês. Mas os únicos que eu não podia ler era a série “As Brumas de Avalon”. São os favoritos da minha mãe. A primeira vez que pedi para lê-los foi com 10 anos. Nessa época eu já me aventurava pelos livros sem figuras. Mas as respostas para os meus pedidos eram sempre as mesmas: não. Segundo ela, era inapropriado para a minha idade. Fui liberada quatro anos depois.  Culpa de todo o sexo e do suicídio da história. Menos de um ano depois eu leria a continuação, “A Casa da Floresta”, temperado com sacrifício humano e virgens sagradas que pulam a cerca e engravidam. Mas aí eu já podia encarar e não teve chiado.

Outro censurado foi “Dogma e Ritual de Alta Magia”. Esse é do Eliphas Levi, um mago conhecido. Comprei no sebo quando eu tinha uns 13 anos. Não lembro de uma palavra do livro. Só sei que eu acordava à noite com ele “me olhando” do criado mudo. É verdade! A lombada do livro me olhava de madrugada. Na mesma época, comecei a descobrir as relações entre Aleister Crowley, Ozzy Osbourne e Led Zepellin (eu tinha comprado meu primeiro CD do Led então, e ouvia Stairway to Heaven todos os dias) e começava a estudar Magia Cerimonial e Alquimia.

Minha mãe nunca teve medo que eu me interessasse de verdade por esses assuntos, mas ela achava que Levi, Crowley, Papus e Fulcanelli (que entraram na dança também) eram um pouco demais para uma garota que mal entrava na adolescência. Fiquei sem poder mexer com o assunto até os 17, mas aí eu já estava em outra. E o livro do Levi tinha ido para o buraco negro. Até hoje eu não o encontrei.

Depois disso não houve mais banimentos. Sei que meu relato não contribui muito para o espírito da semana. Mas foi impossível não lembrar das duas únicas obras que eu não pude ler na vida quando li o Neil Gaiman citando o movimento no blog dele.

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Uma carta

25/09/2009 at 10:05 PM (Carta) (, , , )

Cara Joanne,

Nós não nos conhecemos. Não pessoalmente, pelo menos. Eu costumava ganhar moedas do MySpace bricando com seu coelho, e lembro de ter visto seu nome uma ou duas vezes entre os contatos que brincavam com o meu cachorro.
Além disso, nunca nos falamos.

Mas, para mim, você é uma conhecida de alguns anos. Eu acompanho seu blog, seu site e, principalmente, seus livros. Eu gostaria de ter escrito histórias tão boas quanto as suas, e de ter criado mulheres tão maravilhosas.
Mas ainda não fiz isso.

Como você não me conhece, não sabe o quanto suas mulheres me tocam. Nos últimos dias me sinto mais como a protagonista de “Coastliners” – que, me desculpe, eu esqueci o nome – : introspectiva, pensativa, tentando consertar o mundo. Mas eu amo Juliette de “Holly Fools” e, principalmente, Vianne.

Vianne é um dos meus modelos de mulher. Ela é mais umas 100 personagens reais ou ficcionais que alimentaram minha vida e minha cabeça adolescente. É verdade que li “Chocolat” já adulta, mas lá no fundo ainda sou uma adolescente que prefere os livros às pessoas.

Ela me inspira a cozinhar e a pensar em uma espiritualidade mais simples. Preciso te dizer que meu caminho espiritual é denso, longo e que está prestes a passar por algumas mudanças que eu não sei bem ainda como serão. Mas Vianne me mostra uma leveza e uma simplicidade que eu busco, já que nenhum dos dois são os pontos fortes da minha pessoa.

Na verdade, digo tudo isso para contextualizar uma pequena história que gostaria de te contar. Ontem eu fui a um café muito charmoso. Tomei um chocolate quente divino, em uma xícara grande e bonita. E havia um vento muito forte e frio. Nessa época do ano, aqui onde moro, o frio está diminuindo, mas esse ano ele resolveu ficar um pouco mais. Não gosto desse clima, mas preciso dizer que adoro o vento. Qualquer vento, desde que ele seja forte e tire meus cabelos do lugar.

E enquanto eu estava lá, tomando meu chocolate, com aquela ventarola toda, em um clima que transpirava leveza, eu me lembrei de Vianne e do que ela me representa. Silenciosamente eu saudei os espíritos e deuses do vento. Senti como se estivesse em seus livros, ou como se fosse capaz de conversar com eles e com as mulheres que ali estão.

Não sei se você vai ser importar com isso. Mas é algo que eu gostaria de compartilhar com Vianne. Mas, como ela não poderá me ouvir, achei melhor dirigir essa carta à sua pessoa. Creio que você não chegará a lê-la, mas a história foi contada e é isso que importa.

Um abraço, de alguém que admira muito seu trabalho.

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